Cidade do Vaticano (RV) – Na tarde
desta segunda-feira (16), no Vaticano, o Papa Francisco participou da abertura
da 69ª Assembleia Geral da Conferência Episcopal Italiana. Os bispos, reunidos
na Sala do Sínodo, escutaram com atenção ao pronunciamento do Papa, pelo
terceiro ano inaugurando o evento como Bispo de Roma e Primaz da Itália.
No seu discurso, depois de agradecer a presença de
todos e notar novos bispos na sua composição, pouco menos de 40, pronunciou seu
discurso sobre a renovação do clero a partir da formação permanente.
“Nesta tarde, não quero lhes oferecer uma reflexão
sistemática sobre a figura do sacerdote. Tentemos, ao contrário, inverter a
perspectiva e ouvir atentamente, em contemplação. Aproximando-nos, quase que em
ponta de pé, a um dos tantos párocos que passam pelas nossas comunidades;
deixemos que o rosto de um deles passe perante os olhos do nosso coração e
perguntemo-nos com simplicidade: o que faz a sua vida ser saborosa? Por quem e
para que entrega o seu serviço? Qual é a finalidade do seu doar-se?
”
Iniciando com questionamentos sobre a figura do
presbítero, Papa Francisco começou a delinear suas observações sobre possíveis
respostas que “ajudarão a individuar também as propostas de formação pelas
quais investir com coragem”.
Pertença ao Senhor
“O que, então, dá sabor à vida do 'nosso'
presbítero? O contexto cultural é muito diverso daquele em que ele deu os
primeiros passos no ministério. Inclusive na Itália, muitas tradições, hábitos
e visões da vida foram afetados por uma profunda mudança de época.”
Apesar de vivermos atualmente um “tempo amargo e
acusatório, devemos também sentir a sua dureza: no nosso ministério, quantas
pessoas encontramos que estão em ânsia pela falta de referências para seguir!
Quantas relações feridas!”, disse o Santo Padre. “Sobre esse contexto, a vida
do nosso presbítero se torna eloquente, porque diversa, alternativa”. Precisa
aceitar, assumir responsabilidades, sentir-se atuante e encarregado do seu
destino.
“Sabe que o Amor é tudo. Não procura garantias
terrenas ou títulos honoríficos que levam a confiar no homem; no ministério não
questiona nada que vá além da real necessidade, nem está preocupado de ligar a
si pessoas que lhe foram confiadas. O seu estilo de vida simples e essencial,
sempre disponível, apresenta-o plausível aos olhos das pessoas e o aproxima aos
humildes, numa caridade pastoral que os torna livres e solidários. Servo da
vida, caminha com o coração e o passo dos pobres; faz-se rico do encontro com
eles. É um homem de paz e de reconciliação, um sinal e um instrumento da
ternura de Deus, atento a difundir o bem com a mesma paixão com a qual os
outros curam os seus interesses.”
O segredo do presbítero “está em conformidade
àquela de Jesus Cristo, verdade definitiva da sua vida. É a relação com Ele que
o protege, fazendo-o alheio à mundanidade espiritual que corrompe, como também
a qualquer compromisso e mesquinhez”.
Pertença à Igreja
E dando sequência às questões iniciais, o Santo
Padre continuou:
“Para quem o nosso presbítero entrega o serviço?
A pergunta, talvez, precisa ser esclarecida. De fato, antes mesmo de nos
questionarmos sobre os destinatários do seu serviço, devemos reconhecer que o
presbítero é assim, na medida em que se sente atuante da Igreja, de uma
comunidade concreta da qual compartilha o caminho. O povo fiel de Deus
permanece sendo o seio do qual nasceu, a família na qual é envolvida, a casa
para onde é enviado”.
Nesse momento do seu pronunciamento, Papa Francisco
fez referência ao brasileiro Dom Hélder Câmara ao falar sobre a “respiração que
libera de uma auto-referencialidade que isola e aprisiona”.
‘Quando o teu pequeno barco começará a colocar
raízes na imobilidade do cais’, lembrava Dom Hélder Câmara, ‘vai para o
fundo!’. Parte! E, acima de tudo, não porque tem uma missão para cumprir, mas
porque estruturalmente você é um missionário. Aquele que vive no Evangelho,
entra dessa forma num compartilhamento virtuoso: o pastor é convertido e
confirmado da fé simples do povo santo de Deus, com o qual trabalha e que no
coração vive. Essa pertença é o sal da vida do presbítero. Nesse tempo pobre de
amizade social, a nossa primeira tarefa é aquela de construir comunidade; a
atitude à relação é, então, um critério decisivo de discernimento vocacional.”
Do mesmo modo, observa Francisco, “para um
sacerdote é vital se encontrar no cenáculo do presbitério”. Uma experiência que
pode liberar “dos narcisismos e dos ciúmes clericais; faz crescer a estima, o
apoio e a benevolência recíproca”.
Pertença ao Reino
“Enfim, nos questionamos qual fosse a finalidade
do doar-se do nosso presbítero. Quanta tristeza fazem aqueles que, na vida,
estão sempre um pouco pela metade. Calculam, ponderam, não arriscam nada por
medo de se perder... São os mais infelizes! O nosso presbítero, ao contrário,
com os seus limites, é um que se aventura até o final: nas condições concretas
da vida e do ministério que lhe foram colocadas, ele se oferece com gratuidade,
com humildade e alegria. Inclusive quando ninguém parece perceber. Inclusive
quando, por intuição, humanamente percebe que talvez ninguém vai agradecê-lo
suficientemente do seu doar-se sem medidas.”
O Papa Francisco o caracteriza como “o homem da
Páscoa, do olhar direcionado ao Reino e para onde se sente que a história
humana caminha, apesar dos atrasos, das obscuridades e contradições”.
“Está, então, delineada, queridos irmãos, a
tríplice pertença que nos constitui: pertença ao Senhor, à Igreja, ao Reino.
Esse tesouro em vasos de Creta precisa ser protegido e promovido! Compreendam
fortemente essa responsabilidade, assumam com paciência e disponibilidade de
tempo, de mãos e de coração.”
Fonte e imagem: News.va
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